quinta-feira, 29 de julho de 2010

Medo


«Certas noites, fico deitado na cama, mas sem dormir - confessou-me um dia. - Sabe como é estar deitada na cama, no escuro. Deixam uma lâmpada acesa num dos corredores, mas a partir das dez da noite não podemos ter luzes nos quartos. Formam-se sombras. São provocadas pela luz do corredor que faz com que as coisas pareçam maiores. Fico deitado a olhar para elas e a pensar que são apenas objectos normais, está a perceber? Como a minha mesa, ou apenas como uma cadeira. Mas nessas alturas não parecem nada disso. Parecem outra coisa.
(...)
- Passam a ser parecidos com as pessoas - prosseguiu. - Está a ver, com pessoas que julgava que gostavam de si e, de repente, descobre que não gostam. As cadeiras, a mesa e as outras coisas, tudo muda no escuro. Tal como as pessoas mudam. E fico deitado na minha cama a pensar, percebe, que uma cadeira é mesmo assim. O aspecto que tem durante o dia é apenas um engano. Tem aquele aspecto para me levar a pensar que está tudo bem. Mas, à noite, a cadeira é um objecto feio, nada mais. E sei que, mesmo durante o dia, a cadeira é feia por dentro. Voltará a ser feia quando estiver sozinha comigo. Logo que escurecer, a cadeira tornará a ser feia.
(...)
-Tenho medo das cadeiras. (...) Tento não ter medo das coisas. Tento lutar contra isso. Mas não sou bom nessa luta. As coisas aparecem de todos os lados. É como combater a noite

(excerto retirado do livro «A Prisão do Silêncio» de Torey Hayden)

De facto, lutar contra os medos é como combater a noite. Quando pensamos em noite, associamo-la de imediato ao escuro. Os medos são a parte de nós que teme a escuridão, o desconhecido, o assustador, aquilo que, aos nossos olhos, se sobrepõe a tudo o resto, que quando se ergue assume proporções gigantescas, monstruosas, aterradoras. Ainda que para os outros seja algo inofensivo e insignificante. Mas o nosso medo não nos deixa ver isso.
Quem estará errado? Serão aqueles que vêem as coisas em dimensões muito superiores às normais? Ou serão aqueles que vêem as coisas nas dimensões consideradas correctas? Quem pode avaliar a dimensão daquilo que nos rodeia? Como podemos chegar à conclusão da verdadeira dimensão das coisas se cada pessoa as vê de maneiras diferentes?
Ter medo é humano. Seja do que for. É algo instintivo, irracional, que faz parte de nós. Precisamos de ter medo para sobreviver, caso contrário lançar-nos-íamos em direcção aos maiores perigos sem pensar duas vezes. Mas, ao longo do tempo, as necessidades do ser humano foram crescendo e, em consequência, também os seus medos. Isso também acontece à medida que crescemos. Deixamos de ter certos medos pois conseguimos encarar a verdadeira dimensão das coisas que anteriormente nos assustavam (é como acender a luz e deixar de ver as sombras projectadas na parede, percebemos que uma cadeira é um objecto totalmente inofensivo).
Mas também podemos ir adquirindo outros medos. Na verdade, há medos que nos acompanham até ao fim da nossa vida. Porque crescer não significa deixar de ter medos...talvez apenas racionalizar um pouco mais e ter noção de que alguns deles são desproporcionais.
Eu tenho noção de que alguns dos meus medos são um pouco distorcidos e exagerados em relação à realidade. De facto, não fazem grande sentido. Porque é que falar ou estar perante um público é tão assustador assim? É um medo exagerado, poderia até dizer ridículo. Mas não há medos ridículos, assim como não há sonhos ridículos nem esperanças ridículas. Tudo isso depende de cada pessoa, portanto ninguém pode julgar os medos dos outros. Ninguém tem esse direito.
Tenho medo de comunicar em público, tenho medo da solidão, tenho medo da perda, tenho medo da morte, tenho medo do futuro, tenho medo de catástrofes naturais, tenho medo de acidentes, tenho medo até de coisas das quais digo não ter medo por não querer acreditar nelas, tenho medo do desconhecido. E, pensando bem, talvez estes medos não sejam tão absurdos como às vezes julgo.
Porque somos tão pequenos em comparação com o Universo e não podemos fazer nada para contrariar determinadas coisas que acontecem à nossa volta. Somos tão fracos e impotentes. Se uma tragédia tiver de acontecer, acontecerá e não podemos prevê-la, muito menos evitá-la. É esta a nossa condição. É esta a posição que ocupamos. Tão frágil, insignificante e inútil.
É normal termos medo. É normal que, por vezes, ele nos absorva por completo e nos sintamos completamente desamparados e perdidos. É normal perdermos a esperança.
Não nos sintamos cobardes por isso. Ter medo não é ser cobarde. É ser humano.

«Não há coragem sem haver medo»

domingo, 4 de julho de 2010


(Placebo - The Never-Ending Why)


«Time will help you through
But it doesn't have the time
To give you all the answers to the never-ending why»


Todo o nosso futuro é uma incógnita e as dúvidas são maiores do que as certezas. Tememos os momentos em que temos de tomar decisões que julgamos que mudarão a nossa vida e que definirão o nosso futuro mas a verdade é que todos os momentos são decisivos. A toda a hora, inconscientemente, dizemos e fazemos coisas que definem o rumo da nossa vida. Muitas vezes somos nós que temos o poder de orientar a sua direcção como se alguém nos colocasse um leme na mão e nos obrigasse a conduzir o enorme navio que nos transporta. Na maioria das vezes não sabemos como o fazer, não fazemos ideia de qual é o itinerário a seguir, não nos sentimos capazes de dar um rumo à nossa viagem. É como se alguém nos tapasse os olhos e nos tirasse a capacidade de escolher e decidir. É por isso que, muitas vezes, nos deixamos andar à deriva.
Temos tanto medo de errar, de escolher os piores caminhos. Mas como poderemos saber quais são os piores ou os melhores caminhos sem os experimentarmos? Como poderemos conhecer as consequências dos nossos actos sem arriscarmos, sem chegarmos a cometê-los?
Na verdade, é nisso que a vida consiste: correr riscos. Os resultados são uma variante dos nossos actos: podem ser favoráveis ou desfavoráveis mas antes deles há sempre um momento de dúvida, incerteza e ponderação. E depois um momento de escolha (consciente ou inconsciente da qual poderemos ou não vir a arrepender-nos). Mas sem risco e sem perigo de errar, a vida seria um posto demasiado cómodo do qual acabaríamos por nos fartar e passaríamos a ser meros espectadores, agentes passivos sem qualquer possibilidade de criar o seu próprio caminho. Porque, no fundo, criar o caminho é fazer escolhas entre vários caminhos e tomar uma decisão é escolher entre várias opções.
É verdade que há momentos mais decisivos que outros. Mas esses momentos não devem assustar-nos mais do que o normal. Esses momentos apenas nos ajudam a confirmar ou a contrariar decisões que tomámos anteriormente, em outras fases e outros momentos semelhantes. É assim que nos conhecemos a nós mesmos e aprendemos a escolher o caminho correcto. É assim que aprendemos a viver.

Boa sorte para todos :)