quinta-feira, 26 de julho de 2007

:/

Olá.
Hoje vou recordar um pouco do passado. Não é recordar exactamente, mas vou contar um pouco do percurso até aqui. Na verdade, não tenho feito outra coisa e nem é nada muito interessante, mas nem sei mais o que escrever e falar do futuro está fora de questão!

Então, a parte da história onde entra o MS, ou o Obstáculo (como costumo chamar) é na entrada no Jardim de Infância. Pelo menos foi aí que comecei a dar "sinais" de que algo não estava bem. Porque antes seria mais difícil aperceberem-se disso.
Lembro-me do primeiro dia que tentaram levar-me para lá. E digo "tentaram" porque na verdade, acho que não entrei. A única recordação que tenho desse dia é de estar ao colo da minha mãe e a chorar, como já é de imaginar :/ e a dizer que não queria ir. E essa imagem ainda está aqui bem presente na minha memória, ainda hoje sinto o que senti na altura. Medo, muito medo. E a seguir a esse episódio não me lembro de mais nada. Apenas aquele momento de angústia. E não sei porquê. Não sei porque é que me lembro de momentos tão particulares... Um dia alguém se admirou e perguntou como é que ainda me lembrava disso. E eu simplesmente respondi «Há dias que marcam».

Depois, adaptei-me mas no início foi muito difícil. Também me lembro de outro momento, em que estava ao colo da educadora de infância e para além de chorar, também falei. Dizia que queria ir para casa, pedia a boneca e o gato (na altura seriam só desculpas). E penso que essas foram as únicas palavras que dirigi à educadora. Depois nunca mais falei com ela. Encontrei no silêncio o refúgio que precisava, uma forma de me proteger (só nunca soube de quê).

E mais uma vez, vi-me perante uma mudança. E embora desta vez já soubesse como era estar com outras crianças, também não foi fácil. Nunca foi. Mesmo agora não é.
Entrei na escola primária. E lembro-me igualmente do 1º dia que lá entrei. Não do 1º dia de aulas, isso não lembro (em nenhuma das escolas que frequentei) mas lembro-me do 1º dia em que conheci aquele lugar, provavelmente no dia da matrícula.
E tudo continuou na mesma. No entanto, nesse 1º ano, consegui ler para a professora (algumas vezes, penso eu). Não sei como, não sei porquê. Mas foi a única professora com quem consegui fazê-lo.
E no ano seguinte, ao mudar de professor, voltei ao estado de "mutismo". E assim permaneci durante todos os outros anos, até agora.

A entrada no Instituto Vasco da Gama foi talvez a mais complicada de todas as mudanças. Lembro-me igualmente do 1º dia que passei por aquela porta. E a sensação foi assustadora! Tudo aquilo era muito diferente, desta vez era ainda maior, com mais professores, com mais obrigações. Aqueles primeiros dias foram horríveis, talvez os mais horríveis que passei naquela escola. Chorava todos os dias, a toda a hora, em todas as aulas, nos intervalos, quando chegava a casa. Não há palavras para descrever... foi simplesmente horrível.
E mais horrível do que isso foi aguentar os 5 anos sempre da mesma maneira. Nunca acreditei que pudesse mudar. Nem sabia o que tinha! Chegava à escola no primeiro dia de aulas e a cena voltava a repetir-se. Sempre igual. Durante todos estes anos.
Chegava a acreditar que apenas um milagre poderia ajudar-me. Ia para a escola, pensava que se tivesse fé tudo se resolvia. Como? Como pude acreditar nisso? E depois ficava desiludida e pensava «Talvez para o ano». Mas esse ano nunca chegou. E chegar ao nono ano e ver tudo a acontecer de novo deixou-me de rastos. Na verdade, também não esperava outra coisa.

Hoje, não sei mais o que pensar. Oiço sempre coisas diferentes. Há quem diga que se tiver esperança, acreditar em mim mesma e fizer um esforço, vou conseguir. E o que fiz durante estes anos? Não tive esperança? Caramba, não é questão de ter esperança! Já me disseram também que não é questão de fazer esforço. Não é questão de motivação. Não está tudo nas minhas mãos. Se assim fosse, metade das pessoas ultrapassavam os problemas com toda a facilidade, se dependesse da sua boa vontade. Mas não é assim!
Quanto maior é a pressão para falar, maior é a ansiedade. E isso só vai fazer com que o medo aumente, e a consequência: ficar calado.
Se eu disser para mim mesma «Quando lá chegar vou falar!», aí é muito difícil que fale porque maior é a ansiedade. Quando as coisas estão planeadas são mais difíceis.

E são tantas as coisas que me vão na alma, são tantos os pensamentos que não dá para expressar tudo por palavras.
E agora, mais uma mudança. E não páro de pensar nisto. Não consigo. É verdade que já passei por várias, esta é só mais uma. Mas agora não dá para fingir que me sinto tranquila, não acredito que tudo vá dar certo, mas isso era tudo o que queria.
E isto está a acabar comigo! Depois de 10 anos com um certo perfil, como podem esperar que mude assim de repente? Como é que eu própria posso esperar isso?
O melhor seria nem pensar, mas é difícil demais. Não aguento mais esta luta, uma luta interior que não me deixa ter paz de espírito.
Porque não aguento nem mais um ano assim! Não aguento. Já é demais! Cansei.

Se alguma vez tive força para aguentar isto, agora não tenho mais!

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Sonhar nunca é demais

Olá.
Hoje vim só actualizar. Não gosto de vos deixar tanto tempo sem notícias, embora já nem comentem. Não sei se continuam a visitar o blog ou não, mas enfim, eu não me esqueço de vocês!
Não vou fazer os desabafos habituais nem vou centrar-me tanto em mim. Sei que tenho feito isso com muita frequência, e embora o blog seja meu, não deixa de ser algum "egoísmo".
Como o meu papel é informar-vos, vou fazer um post diferente.
Quando eu achava que já sabia tudo o que tinha a saber em relação ao Mutismo Selectivo, descobri que ainda tenho muito para aprender. Ultimamente tenho comunicado por e-mail com uma pessoa que de alguma forma foi importante conhecer. Já falei dela, é mãe de uma menina que também tem MS. E embora esteja longe, este contacto com ela tem sido importante para mim.
Enquanto em Portugal não se dá a mínima importância a isto, em outros lugares do mundo até se organizam Conferências durante alguns dias onde o assunto é apenas e exclusivamente o «Mutismo Selectivo». Fui informada por esta senhora acerca duma Conferência que se realizou nos EUA (se não me engano...) durante 3 dias, onde ela esteve presente.
Segundo o que ela me disse também, apresentou uma «história» que foi precisamente a minha. Não falou detalhadamente sobre mim mas contou a minha experiência, algumas coisas que sinto e penso, o acompanhamento que estas pessoas têm em Portugal, etc.
Podemos dizer que o contraste entre os países é muito grande, mas não posso deixar de me sentir «privilegiada» pois nunca pensei chegar a isto.
Porque é bom saber que até do outro lado do Oceano, há pessoas que estão a procurar ajudar-me e que estamos todos juntos nisto. Até mesmo pessoas que não conheço!
Este mundo é incrível! E tenho tanto para aprender...
Queria esclarecer aqui uma coisa: quando no início disse que as pessoas com Mutismo Selectivo tinham uma timidez muito elevada, posso dizer que não estava totalmente certa. Há pessoas com Mutismo Selectivo que não são tímidas! No entanto, outras são, como eu...eu sou tímida, sempre fui, mas há casos diferentes! O Mutismo Selectivo trata-se de ansiedade e não de timidez! Espero que isto fique esclarecido...
É um pouco complicado, eu mesma não percebo muito bem certas coisas. Há pessoas que têm outros problemas idênticos, fobias sociais, mas não têm MS. Por vezes fazem confusão.
Há muitas coisas que ainda vou ter que aprender. Aí até poderei fazer o blog crescer e pensar em levar isto mais «a sério»!
É bom saber que há alguém interessado nisto. Acreditem, o meu principal objectivo não é apenas ultrapassar tudo e nunca mais pensar no assunto. É precisamente o contrário! Se há alguma coisa que a minha experiência com este «obstáculo» me ensinou durante todos estes anos, é que jamais virarei costas a quem precisa! Não estou sozinha nisto e sei que sozinha seria muito mais difícil... então por que razão deixaria sozinhos aqueles que um dia poderão precisar de mim?

Sonhos... é verdade, não passam de sonhos. Mas o que seria a vida sem sonhos, sem objectivos, sem metas a atingir? Não é no fim da caminhada que está a felicidade, mas em todo o caminho que percorremos até lá chegar, nos sonhos que construímos...

O sonho comanda a vida. É por isso que vivo. Se os sonhos não nos iludirem, se não nos fizerem esquecer a realidade e as nossas verdadeiras obrigações, sonhar nunca é demais!



quarta-feira, 11 de julho de 2007

Sorrisos (aparentemente) felizes

Olá,
Após algum tempo longe daqui, agora estou de volta!
Estive no Algarve com a minha madrinha e foi muito bom como sempre, embora este ano não tenha andado tão bem. Mas não tem nada a ver com os outros. Nesse aspecto foi tudo óptimo. O mal tem a ver comigo e com a minha vida.
As coisas estão diferentes, a minha maneira de pensar está diferente, as ciscunstâncias estão diferentes.
Nos outros anos as férias eram como uma interrupção em que esquecia tudo (ou tentava esquecer) o que envolvia a escola, o meu problema, as tristezas, etc.
Este ano as férias servem de «tortura», uma maneira de aumentar o meu desespero à medida que o tempo avança. É óbvio que o problema não são as férias, antes pelo contrário, era bom que nunca acabassem. O problema está naquilo que vem depois. Não consigo deixar de pensar nos problemas; é um turbilhão de pensamentos que não me saem da mente, são sentimentos fortes que não consigo controlar.
Agora olho para a frente e vejo dois caminhos que posso seguir. Dois rumos, duas direcções, dois modos de vida diferentes à minha inteira disposição...mas apenas posso escolher um. Sinto o peso de toda a responsabilidade sobre mim. Sei que aquele caminho que escolher vai depender da minha decisão e que apenas eu posso decidir aquilo que quero para mim. E eu sei qual é o caminho certo. Mas tenho medo de não conseguir entrar nele.
Até aqui deixei-me levar por impulsos. Não acreditava em soluções, não queria ver o outro caminho que afinal existia. Na verdade, nunca o vi. Sempre acreditei que só me restava continuar assim e que talvez um dia o tempo curasse tudo. Agora eu sei, estava errada. Mas não tinha culpa de ver as coisas daquela maneira.
Muitas coisas mudaram. Eu já não penso da mesma maneira. Isso faz a diferença. Agora sofro mais, não por pensar que nunca vou ultrapassar isto, mas por saber que um dia vou ter que ganhar força suficiente para enfrentar e fazer aquilo que sempre pensei ser impossível. Sei que há solução e assusta-me pensar que toda a resolução do «problema» cabe-me a mim.
Não queria falar sobre este assunto agora e estragar as melhores recordações, mas senti necessidade de o fazer pois todos os dias me sinto atormentada por isto e não tenho como livrar-me a não ser escrevendo.
Mas para não parecer mal, escondo a angústia com um sorriso (mesmo não sendo sincero, é sempre um sorriso).

Espero que as vossas férias estejam a ser boas. Eu não posso dizer que as minhas sejam más, apenas não são o mesmo que eram antes.


(Por vezes sinto vontade de mudar de planeta e fingir que nada disto existe. Porque é que o Ser Humano tem que ser tão complicado? Porque é que é necessário dar tanto valor a coisas tão superficiais e abstractas? Estou farta de Seres Humanos!)


Fiquem bem (e com muitos sorrisos)!